Bem, decisão foi tomada, e hoje aqui estou eu, no Brasil, mais propriamente em Blumenau, estado de Santa Catarina.
A viagem de avião, foi como se tivesse mais torbolencia do que o normal, devido a dentro de mim ser um turbilhão de sentimentos. Custou muito ir embora, e deixar a razão de viver lá, cheguei parecendo um defunto, o corpo estava vivo mas a alma não estava mais presente no corpo e disse ao meu primo: "Se não me entusiasmar com o trabalho, vou sair voando".
À noite, sozinho em casa, lembrando-me de tudo, as lágrimas corriam-me a face, e a força já não existia, não tinha vontade de respirar, de comer, não tinha vontade de viver... Adormeci...
Acordei cedo, eram 5 da manha aqui quando me levantei, me arrumei, comi qualquer coisa e sai para o trabalho.
Cheguei lá, respirei fundo e entrei, dirigi-me ao balcão de informações e expliquei a que vinha, chamaram logo a equipa e todos me receberam de braços abertos, senti-me muito bem, com essa recepção. Conheci as instalações, tem umas excelentes instalações diga-se por sinal, e contaram-me um pouco da história dos sitio onde estou.
Bem para quem ainda não sabe, eu estou trabalhando com crianças que tem doenças graves, com crianças que vivem situações complicadas... É um género de animador voluntário mas sou pago.
Aí depois de terem trocado os turnos às 8 da manha, tive a possibilidade de conhecer os restantes funcionários, e comecei a trabalhar. Fui conhecer todas as criança que de agora em diante vão passar muito tempo comigo e querem que vos diga? Estou a Adorar, ver casa sorriso na cara daquelas crianças que mesmo com pouca idade dão as respostas mais sábias que alguém poderia obter de alguém.
E durante o dia de ontem, dia 22 de Agosto, enquanto animava as crianças, que encontrei uma menina de 7 anos quase com 8, muito bonitinha, chamada Thaísa, que me deu uma resposta que me deixou a pensar. Quando lhe perguntei quem era ela, estava a espera que me dissesse o nome e afins e ela me respondeu: "Sou alguém que está aprendendo a viver!". Sinceramente, eu próprio sou alguém que está aprendendo a viver de novo...
Bem mas é com esta menina que entra a parte gira de mais um episódio da minha vida. Vocês perguntam o que que é bonito nisto? Eu respondo, aquela menina me fascinou, começou a fascinar-me com a frase que me disse e entretanto foi-me fascinando aos poucos e poucos pelos sorrisos, pelos abraços, pelos olhares, pela história que já tem tendo apenas 7 anos.
Eu vou contar-vos a história desta menina, a mãe uma adolescente de 19 anos conhece um jovem de 25 e apaixona-se por ele, durante um verão inteiro de "amor", ela engravida e o jovem abandona-a. Ela conta-lhe e ele não quis saber. A criança nasce, a mãe liga ao pai e o mesmo já não tem aquele numero, já não vive naquela casa. 5 anos depois os pais encontram-se numa viagem de trabalho da mãe a São Paulo e o homem mostra-lhe a sua família e diz-lhe que nunca quis saber da filha que ela tinha porque já estava casado, e esperava que ela nunca mais o procura-se. A partir daí a situação complicou-se, a mãe adoeceu, tem um cancro que não foi descoberto a tempo e agora não tem mais solução, não tem mais cura, e os médicos dão pouco tempo de vida a esta mulher de 27 anos.
Vocês estão a perguntar de certeza o que que isto tem a ver comigo, e eu digo-vos, ao saber de tudo isto, e tendo aquela menina fascinado-me tanto, quando soube que a mãe teria de passar a ficar no hospital e que a filha não tinha lugar nenhum para onde ir, "entrei em acção". Ou seja, pensei em falar com a mãe e pergunta-lhe se não poderia ficar com a criança, e levava-a todos os dias ao hospital visto que também lá trabalho, assim a Thaísa está com a mãe e com o psicólogo que a acompanha ao mesmo tempo. Não disse nada nem à mãe, nem à menina. Fui para casa, mas sempre com essa ideia fisgada.
Quando cheguei a casa contei tudo isto à minha namorada que me apoiou na decisão que eu tomar, e só com as palavras dela, eu me deitei todo feliz e contente. Hoje de manhã, contei ao meu irmão que me respondeu o mesmo que a minha namorada, e mais umas coisas que ele pensava que eu não tinha pensado ainda. E lá fui eu, falei com a mãe que no inicio ficou meio espantada, pois não estava à espera que alguém tivesse aquela atitude, muito menos um rapaz e com apenas 19 anos, mas eu fui explicando alguns episódios da minha vida, o porque de ter ficado tão tocado com a história delas e que sinceramente queria ajudá-las e ai ela chamou a Thaísa ao pé de nós, lhe perguntou se ela queria vir comigo e passar a viver comigo visto que a mãe tinha de ficar no hospital, e por incrível que pareça a resposta dela, com um sorriso enorme na face foi: "Estava a ver que nunca mais ninguém se importava comigo. Eu sabia que me ias ajudar Ricardo. Claro que quero mãe!" e se abraçou a ela, e logo a seguir a mim. O sorriso que ela teve o resto do dia na cara foi tão contagiante que eu próprio não tive de fazer nada para alegrar as outras crianças, elas já estavam contagiadas com o sorriso dela.
Sinto-me muito bem por poder ajudar uma família, principalmente uma criança destas, cheia de sonhos, de iniciativa, de vida, e de certa forma de experiência. Acho que ganhei uma filha a partir de hoje :)
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